terça-feira, 9 de outubro de 2012

9-10-12

Ana,
Hoje foi dia de dar aula. Acordei bem cedo, porque estava ansiosa. Como não consegui dormir direito, fiquei com muito sono. A ansiedade era tanta que eu estava pronta para sair uma hora antes do necessário. Fiquei andando de um lado para o outro, falando sozinha para passar o tempo.
Eu estava muito nervosa. Não foi minha primeira vez, mas eu estava mesmo muito nervosa. Estava com uma coisa na cabeça que não me deixava pensar. Evitei olhar para os alunos na maior parte do tempo. Eu tremia tanto que era difícil me concentrar.
Os alunos são bons. Agitados, mas bons. Eu realmente gosto dessa classe das terças-feiras. A menina Luiza não estava lá hoje. Luiza é filha de uma japonesa e um americano. É muitíssimo graciosa e aplicada, quase não fala. Presto muita atenção nela e no rapaz David, que se senta perto da porta. Mas a questão tem a ver com Luiza.

Na semana passada, eu comentei com Sabrina, minha “mentora”, que achei Luiza bastante agradável, digamos, esteticamente. Comentei sem pensar, com naturalidade; eu sou artista, afinal, mesmo que em total decadência, e coisas belas chamam a minha atenção tão facilmente que nem percebo mais, mas de repente me ocorreu uma coisa...
Sabrina fala com seus alunos sobre o namoro com Thiago, coloca fotos com ele na Internet sem problema algum. Aliás, Thiago é aluno dela. Já eu, nunca vou poder fazer algo assim. Certamente que não estou em relacionamento algum e pretendo continuar assim, porque há no mundo apenas uma única pessoa que me interessa (ela está sempre presente, perceba, em todos os meus pensamentos), mas nunca vou poder falar da minha vida.
 
A média de idade dos alunos dessa classe é de 13 anos. Não são tão novos (quando eu tinha treze anos, minha professora espalhou pelo colégio a história de que eu era prostituta, satânica e suicida). Mas eu ainda sou uma má – péssima – influência. Imagine se algum pai ou alguma mãe nessa cidade aceitaria que os filhos tenham uma professora lésbica. E seria ainda pior se descobrissem que namorei uma garota de quatorze anos (mas eu tinha dezessete!). Não posso ter meus alunos em redes sociais e não posso responder perguntas pessoais, e eles me enchem de perguntas pessoais porque, oras, acabamos de nos encontrar! Convivo com eles, mas não os conheço e eles não me conhecem. Não posso perguntar sobre eles, porque também perguntarão sobre mim.

As secretárias sabem. Não aprovam minha vida “desencaminhada”, mas não têm problemas em lidar comigo. Às vezes surgem brincadeiras entre nós, aquelas horas em que uma diz “Cuidado, ela está de olho em você” e eu digo algo como “Ah, não, você é loira, não gosto”. Conversas completamente naturais para nós, mas que agora, por eu ser professora, podem causar problemas.
Hoje Sabrina disse que “a garota que eu amo” havia faltado. Bem, Luiza me interessa apenas por ser uma aluna inteligente e uma menina bonita, mas tem, não sei, 12 ou 13 anos. Eu jamais me atreveria a pensar qualquer coisa dela. Sabrina sabe disso. E as meninas da secretaria também. Não sou idiota nem criminosa e tenho horror a pedófilos. Mas é assim que brincamos, como se eu fosse me interessar por toda garota bonita que apareça na minha frente, especialmente se tiver traços orientais. São brincadeiras sem propósito que nos rendem boas risadas. Mas hoje eu disse a ela que é melhor pararmos. Pode causar problemas se algum pai ficar sabendo da minha... coisa.

Só que se eu ficar escondendo, sinto como se estivesse traindo minhas memórias, a época em que fui agredida e humilhada por me recusar a concordar com a ideia de que sou “doente”. Passei por tudo aquilo para me esconder agora?

Estou tão confusa e irritada com isso. É ridículo, suponho, mas corro o risco de perder o emprego e, mais, levar um processo de alguém souber da brincadeira sobre Luiza. Eu queria desenhá-la (ela é mesmo muito bonita), mas não posso. Não posso nada.
E então?

terça-feira, 25 de setembro de 2012

25-9-12

Tomei o remédio. Tomei, tomei, tomei, tomei... Estou me sentindo tão mal. Acho que me sinto pior agora do que me sentia antes de tomar. Não acredito que fiz isso. Estou tremendo outra vez.
Quebrei a pílula em duas partes e enchi o copo com água. A sensação enquanto tentava engolir a primeira parte do remédio foi a mesma de quando vou ao médico ou à escola. Parecia que estava morrendo. Comecei a chorar e me segurar no armário para ficar de pé, porque achei que fosse perder a força das pernas e cair. A segunda parte desmanchou antes que eu conseguisse engolir. Felizmente estava sozinha na sala. Mamãe riria de mim.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

24-9-12

Estou tão confusa, Ana... Não sei mais o que quero, tenho medo de tudo. Sinto dor o tempo inteiro.
Será que sou mesmo louca? Sinto tanta, tanta dor. Minha mão está tremendo.
Ana... Não me reconheço. Não sei o que faz de mim eu mesma.
Quem sou eu?

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

13-9-12

Parece tão ridículo que eu ainda me sinta tão criança quase um mês depois de ter me tornado “adulta”. Meu 18º aniversário me trouxe medo. Não posso mais evitar encarar o mundo de gente, por mais que o odeie. É minha obrigação encará-lo. Devo ver, aceitar e ficar quieta.
A sensação é de não pertencer a mim mesma; meus valores morais, as coisas nas quais acredito, minha mente, tudo que deveria ser meu está sujeito ao constante e incessante estupro por parte da sociedade.
Por mais doloroso que seja ser obrigada a acordar, fantasiar é a única maneira de me manter intelectualmente viva. O mundo que criaram para mim sufoca; a aflição me domina; vejo coisas terríveis o tempo inteiro e não posso mudá-las. Sinto-me estéril.
Será que alguém um dia lerá meus versos, ouvirá minhas canções e compreenderá tudo isso?
Chorar não ajuda agora, mas ninguém está vendo. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

20-8-12

Ana querida,
Estou escrevendo por impulso outra vez – perdoe as baboseiras e frivolidades, bem como minha letra terrível – é madrugada e eu não consigo deixar de tremer.
Acho que dessa vez desisti de verdade. Acho que a ideia de fazer algo especial e importante foi chutada da minha cabeça. Não quero mais coisa alguma. Que eu engula o vômito e cuspa o medo; terminarei o Ensino Médio em algum supletivo. Eu prometo não desistir pela terceira vez. Mesmo que eu seja uma porcaria e volte a sofrer dos ataques de pânico, mesmo que eu volte a rasgar e costurar meu corpo inteiro, quando eu começar de novo, vou terminar.Vou entrar para alguma universidade. Vou me formar e viver uma vida medíocre; vazia, mas que importa? É só o que mereço.
Não quero mais sentir coisa alguma. Todo sentimento – bom ou mau – resulta em dor. Você sabe que odeio dor. Eu estou sofrendo agora, mas logo melhoro. Não preciso de ninguém. Sei cozinhar (o suficiente para sobreviver, apenas), lavar e passar, terei um emprego comum que pague minhas contas e sozinha vou viver até o dia em que sozinha vier a morrer. Não, eu não rimei de propósito.
Merda, sujei o papel. Desculpe, me distraí, apoiei o braço e... Ficou horrível.
 
Honestamente, eu estou apavorada. Estou só demais. Meu maior medo é morrer só. Tenho muito, muito medo. E sempre que estou só, parece ser a situação perfeita para que eu morra. Odeio isso mais do que consigo escrever. Passa de duas da manhã e estou escrevendo uma carta que certamente não vou enviar. Quero dormir, mas tenho tido sonhos horríveis. Duas noites atrás, sonhei que eu ateava fogo a uma mulher. Na noite passada, todos morriam e eu fugia sem tentar salvar ninguém.
Odeio sonhar.
 
Falta um dia para o meu aniversário e creio que nunca me senti tão completamente nada. Estou cada vez mais cansada. Quero sumir daqui.
Acredita que as moças aqui me tratam como a uma cadela peçonhenta? Acham que sou um vírus ou um monstro devorador de genitálias. Isto, é claro, enquanto elas levantam as saias para qualquer moleque que apareça por perto. Vadias, todas elas.
As pessoas, Ana, são os verdadeiros seres irracionais. Pessoas são nocivas. Eu gostaria, mais do que tudo, de ser um gato. Não suporto mais toda essa asneira que me obrigam a ver. Faz três meses que evito contato direto com o resto do mundo. Prefiro conversar com o relógio e o espelho a engolir o vurmo das feridas infeccionadas da sociedade.
Mas isso é por hora. É um mero turbilhão de pensamentos engasgados. É natural, creio – estou a gastar toda a minha humanidade (no sentido teórico, não prático, da coisa) porque quero virar nada.
Chega de sentir!
 
Duas e meia, estou morrendo de sono. Acho que vou para a cama. Vou acordar antes do amanhecer, certamente, graças a algum sonho bizarro e desagradável. Bem,
 
[Carta incompleta]

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

6-8-12

Às vezes, sinto que sou a pior pessoa do mundo. Sinto que não mereço consideração qualquer que seja. Fiz tantas coisas terríveis. Menti para tanta gente, magoei tanta gente, causei tanto desconforto. É claro que tive meus motivos. Quando eu disse que apanhei na saída do colégio, em 2009, e não voltei para lá, ninguém havia encostado em mim, mas eu disse o que disse para justificar o que estava sentindo. As garotas realmente me seguiram, mas gritaram ao invés de bater. Trataram a mim como a um verme, ofendendo, rindo, pisando sem levantar os pés. Eu senti meu corpo inteiro e minha alma sendo socados. Queria morrer. E pensei que ninguém entenderia se eu contasse a verdade; diriam que era besteira e que não tinha importância, mas tinha. Em mim, aquilo doeu como um tiro e acabou com toda a minha coragem de encarar o mundo.
É verdade que em outras ocasiões ocorreram violências físicas. Lucas segurou meu cabelo e bateu minha cabeça na mesa do professor várias vezes. Mas nesse dia as palavras também doeram mais. “Sapatazinha de merda”, ele disse. “Não vale nada”. Jogou molho nas minhas coisas e espalhou boatos sobre prostituição, aproveitando a antiga história que a professora de matemática havia criado dois anos antes. Fez isso durante muito tempo, mas era amigo (e depois, namorado) da minha melhor amiga, então eu ficava quieta. E, no fim, ela me esqueceu, me apagou da vida dela como se eu nunca tivesse existido.
Enfim, também houve situações no CCAT, gente me cercando no banheiro, trancando portas. Naquela época, ninguém sabia, nem eu entendia que era gay; eu tinha nove, dez anos. Mas eu sabia que algo em mim não era “normal”, e nunca abri a boca para falar disso. Só que eu era esquisita e, aparentemente, odiável. E também houve a psicóloga que m empurrou, uma vez, mas eu nunca disse. Comigo nunca é o corpo. O problema são as palavras.
Bem, eu menti na coisa de 2009, mas eu estava em pânico. Naquele ano, todo mundo sabia que eu namorava uma garota e me viam ou como uma aberração ou como uma palhaça. Minha intenção não era mentir por mentir, e sim demonstrar como eu me sentia (nunca fui boa nisso).
Feri meus pais com isso. E me odeio por ter feito tal coisa. Também me odeio por outras coisas, mas esta foi a que mais deixou sequelas.
Entretanto, quando paro para olhar o mundo, vejo tanta mentira por motivos idiotas, tanta gente como aquelas das quais fugi. De algum modo, começo a pensar que não sou a pior. Mas isso não me alegra.
Odeio este mundo. Odeio estas pessoas. Odeio tanta coisa.
A única coisa que não odeio, além dos gatos, é o amor que sinto por ela. Mesmo que eu não o receba de volta, esse sentimento é a melhor coisa que já nasceu em mim. Eu a amo tanto que sempre vêm as lágrimas. Mesmo longe, amo.
O que achas disso, Ana?

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

3-8-12

Ana,
Desculpe pela folha de caderno. Estou escrevendo por impulso, depois de quase uma hora e meia de muda reflexão dentro do armário (sim, eu estava sentada dentro do armário). A situação, como talvez tenhas percebido, não é das melhores e, se quiseres saber o que penso, acredito que de agora para depois, será pior e pior, cada vez mais. Não vou deixar que percebam, naturalmente, ao menos enquanto puder controlar, mas estou completamente sem forças. A cada vez que consigo uma lasquinha de esperança, caio mais fundo.
Perdi Rosângela. Até hoje, era mera suposição. Eu pensava sobre o comportamento recente dela, e também o meu, e supunha que o fim era eminente. Hoje tive a confirmação. Perdi-a. Ou melhor, deixei que fosse. Ao menos foi sincera. É raro eu encontrar quem me diga a verdade. Ela disse não achar certo estar comigo se apenas “gosta” de mim, e não “ama”. Eu disse “Tudo bem”. Então, ela perguntou o que eu queria, e eu disse que não quero nada se ela não quiser. Assim. Assim. Assim.
Essa sou eu, Ana – alguém suficientemente imbecil para abrir mão de quem ama sem sequer argumentar. Por que eu faço essas coisas? Por que deixo todo mundo ir? Não consigo segurar ninguém. E, na verdade, não me importo. Os que foram antes não me importam. Mas Rosângela... eu não sei, só sinto que desisti do maior sentimento da minha vida. Ou melhor: o sentimento continua em mim, certamente; o que eu não tenho mais é a razão da existência dele.
Odeio minha própria mente. Odeio-me inteira por ser incapaz de... Gosto tanto dela que não consigo cogitar pedir a ela que fique comigo se ela não quer. Por quê? Nos filmes, as pessoas se ajoelham, e choram, e gritam, imploram. E eu, mesmo querendo fazer tudo isso, apenas aceito.
Patético.
Então, o meu pai gritando comigo. Ele não disse nada que eu não soubesse. Tenho consciência do peso que minha vida e minha insanidade têm para os outros. Sei que causo problemas e insegurança e que nunca serei coisa melhor que um verme parasita. Sei de tudo isso. Aprendi cedo, felizmente. Mas ouvir isso do meu pai doeu mais do que doeram meus quase dezoito anos. Era a última pessoa de quem eu esperaria ouvir tais coisas.
Não sou boa com coisa alguma, não concluo coisa alguma. E agora, não quero coisa alguma. Horváth se diverte às minhas custas, suponho, como, aliás, todo mundo sempre fez.
O que vou fazer, Ana? Eu te juro que hoje sou Ayase, como se criá-lo, anos atrás, naquela história que ninguém leu, tivesse sido como um prenúncio do que seria a minha vida. Se antes eu era Yukio, agora sou Ayase, mas ainda não encontrei meu próprio bastão de ferro para transpassar meu estômago e acabar com isso de uma vez.
Tu, Ana, és a única pessoa humana no mundo inteiro que ainda não me deixou. Sinto muito por não ser boa para ti como tu és para mim. Eu a amo. Juro que amo.
Obrigada por parecer mais com um gato do que com gente.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

2-8-12

Eu sei que sou horrível. Não consigo terminar nada, deixo tudo pela metade, ninguém me aguenta, minhas amizades têm prazo de validade, eu sei que incomodo a todo o mundo. Sei disso desde que Andresa disse que não podia ser minha amiga porque eu “mudo demais”. E Ana Beatriz não quis mais falar comigo. E Daniella disse que eu só teria amigos se pagasse a eles. E eu comecei a pagar, comprando tudo o que podia para eles, e eles riam de mim sem eu ver e ficavam por perto para aproveitar. Eu sei que só trago problemas, que faço tudo errado, que sou imprestável e nem música sei fazer direito, mas ouvir isso do meu pai dói mil vezes mais do que ouvir de mim mesma. Se até ele, que tem a “obrigação” de gostar de mim, me acha tão ruim quanto me disse, não tenho nada. De que adianta eu conseguir parar de me machucar, conseguir ser gentil às vezes, fingir que está tudo bem para tentar incomodar menos, e nem meu pai gosta de mim?
Depois do COJUC, me esforcei tanto, tanto para não decepcionar todo mundo de novo. Mesmo que as pessoas fossem legais comigo no Dearina, eu não sei reagir. Eu não sei lidar com gente amigável. Porque ninguém foi amigável comigo a minha vida toda. A gentileza deles acabava comigo. Eu queria retribuir e não conseguia. Magoei tanta gente com isso, e mesmo assim Érica e Larissa me veem como uma professora, uma mentora. Não quero nunca mais voltar a vê-la. Não quero que essa imagem mude. Não queria estudar com elas por isso, então fui para Rio Bonito. Não conhecia ninguém lá, então era para ficar tudo bem, mas não ficou. Porque eu nunca fico bem, não importa onde. Eu odeio as pessoas. Odeio todo mundo mentindo, fingindo que gosta de mim para rir e fazer piadas quando eu falto aula. Odeio. Odeio demais. Não sei lidar com gente. Só sei lidar com gatos. Só. Eu não deveria nem ter nascido. Eu sei disso. Mas ele não podia dizer daquele jeito. Afundei outra vez.
Sempre soube que eu morreria antes dos 30. Não consigo me ver depois dos 30. Vou morrer antes. Agora tenho certeza. Não passo disso. Nem mesmo eu me aguento. A única utilidade da minha vida é servir de adubo.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

1-8-12

Ana,
Parece que finalmente descobri por que gosto tanto de O Fantasma da Ópera em todas as suas infinitas versões (aliás, hoje eu estava relendo o livro e novamente assistindo o musical com a Yoka). Finalmente entendi.
Por debaixo das minhas roupas de Christine, há um coração de Erik: vivendo na obscuridade, preso às lembranças, sedento de amor, louco mas excessivamente são. Disfarço o desespero com o colorido das roupas.
Tu tens razão, afinal. Sou tão grande, grande demais para caber em uma. Não consigo nem posso ser apenas uma. Preciso dividir a dor para suportar.
Vai ver é por isso que não posso ter aquela garota. Talvez por ser Christine e Erik ao mesmo tempo, eu já seja meu próprio par até o fim da vida. A esta altura, Ana, eu já percebi que não a terei jamais. Por mais que eu a ame tanto que sinta doer os órgãos. Por mais que eu a ame e queira e bem ou mal espere, vou morrer sem tê-la. Rosângela é, de fato, o “grande amor” da minha vida. Sei disso tão bem quanto sempre soube que eu jamais seria normal. Sinto meus músculos se contraírem todos e pararem minha respiração quando penso que a perdi. Não digo a ninguém além de ti e da própria Rosângela, porque qualquer pessoa além das duas me chamará de adolescente confusa. Não sei se ela compreende, mas espero que sim. E tu... tu és a que sempre entende minhas dores.
Acredite, Ana, que estou com lágrimas nos olhos agora. Não paro de pensar nela, na voz, no rosto, nos braços, no cabelo cacheado... Como pode? Em sete de setembro completará um ano desde que a conheci. Foi tão rápido, Ana, tão rápido que eu a deixei ir sem lutar por ela. Tens ideia do quanto odeio a mim mesma por isso?
Ninguém neste mundo além dela há de tocar em mim. Ninguém. Que ela não seja nem queira ser minha eu compreendo e não a culpo. A coitada pensou que também me amava, mas não me conhecia de fato. Não a culpo. Foi por isso que percebi a semelhança com o Fantasma: quando Christine implora a Erik que acredite em seu amor e mostre seu rosto, ele, que a ama apesar e acima de tudo, tira a máscara. E então Christine foge. Talvez seja por isso que eu chore ao assistir musicais ou ler o livro. Choro mesmo. Tanto que quase seco.
 
 
Escute, Ana, eu não estou bem. Admito pela primeira vez de fato, com todas as letras: eu não estou bem, e não estou há algum tempo. O que aconteceu com Rosângela piorou tudo. Eu não a culpo porque a culpa é minha. Dói tanto, tão profunda e imensamente, que eu não sei quanto tempo mais posso aguentar. Eu a quero, mas não luto, não brigo por ela, justamente porque a amo e coloco suas vontades acima das minhas em toda e qualquer situação. Não sei o que é mais terrível: se é quando eu vagava moribunda por aí levando socos da vida e dos vivos sem saber que havia algo maior e melhor do que aquilo, ou se é agora que sei exatamente o que me faria inteiramente feliz e não tenho forças para segurar.
 
Mudando de assunto para evitar o suicídio (ao menos por enquanto), escrevi uma mensagem para Mana-sama. No sábado. Escrevi algo como “Não vou ao show, mas quero agradecer pela vinda ao Brasil e dizer que meu coração estará com você em São Paulo”. Achas que fui muito tola? Nem sequer planejei escrever; foi mais um dos meus detestáveis atos impulsivos.
Quero escrever à Yoka. Sim, eu consegui o endereço naquela época, mais ou menos dez meses atrás, mas falta coragem. Para mim, ela é muito... Erik. Não sei, acho que na minha mente eu a vejo como Erik. Foi o personagem mais marcante para mim, especialmente por ser um Erik absolutamente frágil e gentil diante de Christine, apesar de ser terrível com quem invada seu espaço (reconhece essa descrição?). Vejo-me inteira na interpretação de Yoka. Talvez eu soe convencida, mas juro que é verdade. Os sorrisos diante de Christine são cheiro de amor, mas doídos, porque ele teme que ela fuja ao ver seu rosto, seu verdadeiro eu. O sorriso de Yoka como Erik lembra a inocência e a fragilidade de uma criança, mas também lembra a dor do luto e o desespero que causa a rejeição. Eu sei como é – e tu também sabes, mesmo que não em todos os sentidos, tenho certeza – ter esse sorriso no rosto e ninguém entender de verdade.
Eu sei que Erik foi um personagem entre os tantos que Yoka encarnou. Posso citar vários outros, como Lady Chacha e Drácula, e ela é uma atriz magnífica, mas não sei se desassociei o personagem da atriz. Na verdade (que isso fique entre nós duas, por favor!), acho que de certo modo eu devo ter me apaixonado por ela em algum momento, no começo, logo que vi seu Erik pela primeira vez, mas como se estivesse me apaixonando por mim mesma, pela minha realidade. Não tenho certeza se me apaixonei de fato, porque o que senti foi uma profunda vontade de beijar aquele rosto deformado e vê-la (vê-lo) sorrir, mas penso que senti isso porque eu queria que alguém beijasse a minha alma deformada. Entende?
Minha mente é sempre tão confusa em relação a Yoka. Quando penso nela, imediatamente associo o nome e o rosto a Erik, e ouço sua voz cantando “Boku no sakebi o kiite kure...”, e penso na dor, na agonia de ser deixado para trás, ser renegado pela pessoa que tu amas verdadeiramente mais que tudo, e então penso em Rosângela, e minha cabeça salta de uma para a outra, e eu sinto tonteiras.
Tenho medo de escrever à Yoka, receber uma resposta e confundir as coisas ainda mais. Mas quero tanto escrever! Talvez eu queria confundir as coisas. Para aliviar, não sei. Penso que, na minha cabeça, Yoka Wao seria aquela pessoa a me compreender e aceitar por inteiro, com todos os erros e defeitos. Mas isso é porque lembro de Erik e penso que ele compreenderia alguém como ele mesmo – mas ele não é ela!
Tenho alucinado e tido pesadelos. Demoro muito para conseguir dormir e acordo várias e várias vezes, mas sempre tenho pesadelos. Erik tira a máscara, Christine grita e foge e Erik é esquecido sozinho, agonizando, desesperado por ser “feio” demais para ser amado.
Lembra-te que meu maior medo é que riam ou fujam de mim ao verem quem eu sou de fato? Aconteceu tantas vezes desde a infância, Ana... mas nunca doeu tanto como dói ter perdido Rosângela.
Quando Yoka – Erik – canta, eu não consigo não chorar. “Doushite kono you ni umarete kita no darou?”. Repito a pergunta eu mesma: por que nasci assim? O que fiz para merecer? Nem ao menos tive tempo de fazer algo para merecer. Está tudo errado desde o princípio!
Cansei.
 
Cansei da vida, Ana.
Quero morrer.
Não quero mais colecionar lembranças do que poderia ter sido bom se eu não fosse errada.
Kurayami kara sukutte hoshii”, diz Yoka. Quero ser resgatada da escuridão, eu repito.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

12-7-12

Estrelas pingando. Por que estou obcecada por essa ideia? Estrelas pingando em mim e nela, enquanto o vento cresce e nós dormimos, talvez perto do mar, mas eu não temo o mar, não sinto as ondas, porque tenho a ela e tenho gotas brancas que brilham e que vêm do azul de cima. Por quê? Estou sonhando acordada. Acordada? Em plena madrugada de inverno, longe dela, longe dos braços, dos lábios, do ronronar encantador.
Quero-a comigo agora. Poesia não me satisfaz, música não me satisfaz, café não me satisfaz e nem os cigarros o fazem. Apenas ela, com aqueles olhos brilhantes, com aquele cheiro de frutas (eu chorei quando o cheiro desapareceu das minhas coisas), com aquela voz, apenas ela me completa e, portanto, me satisfaz.
Que medo, que medo de perdê-la por ser assim tão nada. Que medo horrível que me tira o sono! Como dói não saber, não ter a certeza de que sou amada e querida como amo e quero, incondicionalmente, sempre, quer eu abra ou feche os olhos.
É saudável amar assim? Um sentimento tão forte que aperta, esmaga todo o resto, mas me dá esta luz que jamais tive, a certeza de que ao menos uma parte de mim eu conheço, a parte que sem ela não existe; porque sem ela eu sou outra e não me reconheço, sem esse amor eu não existo, como não existi até encontrá-la sem querer.
Eu a amo! Amo, amo, amo! Absolutamente!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

11-7-12

Ana,
O que achas que devo fazer?
Quero não mais querer coisa alguma além do que tenho, mas o que tenho é vazio e frio como um morto, e eu temo estar morta sem saber disso.
Quero tê-la. Quero ter meu amor comigo para sempre. Quero abraçá-la todos os dias, senti-la perto de mim, assisti-la dormir como há meses fiz, os sonhos acontecendo nela, que dormia ao meu lado sem fazer ideia de que eu não pregaria os olhos. Quero-a assim de novo, e de novo, e de novo, e então para sempre, minha como eu sou dela.
Quão bobo é escrever tais palavras num antigo caderno usado, numa fria tarde de inverno, sozinha num quarto triste. Como eu queria passar os braços por aquela cintura e puxar para perto, tão perto quanto possível, a única pessoa que nunca me assustou! Quero tomá-la para mim e amá-la como ninguém além de mim faria; quero tanto que até tremo.
Não paro de pensar nela. Às vezes até sinto o cheiro nas cobertas – delírio, é claro.
Como é possível algo assim? De onde saiu todo este amor? Em que parte de mim isto estava? Eu vivia de odiar! Vivia de odiar a mim, ao mundo, a todos, a tudo. Agora vivo de amar a ela – somente ela!
Apenas ela me completa. Os dias que passamos juntas foram magníficos. Perto dela, não tenho medo da noite. Perto dela, perco as palavras por alegria, não por raiva. Perto dela, me sinto quase pura, virgem, não sei, como se somente com ela meus atos fossem de fato sinceros. E são. Apenas para ela, com ela, são.
Não é absurdo? Eu, amando assim!

quinta-feira, 31 de maio de 2012

31-5-12

Eu poderia tentar escrever algo, mas... Eu não tenho mais ido ao colégio. E não falo com mais ninguém. Não saio de casa. Você deve entender só por ler isso.
Falhei outra vez, Ana.

domingo, 18 de março de 2012

18-3-12

Consegui. Consegui dizer a ela algo que eu estava pensando. Ela me aceitou de volta, Ana! Aceitou!
Passei o Carnaval inteiro me sentindo a pior das piores. Ela disse, um pouco antes de terminar, que alguma amiga me detestava. Eu perguntei o que eu havia feito e ela disse “O problema é que não fez nada”. Então eu percebi que alguma coisa estava mesmo muito errada.
Ei, Ana, será que eu prevejo o futuro?
Bem, ela terminou o namoro na sexta-feira antes do Carnaval. Quando as aulas retornaram, eu estava tão péssima que Nathália perguntou o que havia acontecido e eu não consegui não contar. De repente, todo mundo da classe sabia. Todo mundo. Dryele chegou ao ponto de dizer “Graças a Deus! Vai aparecer um homem na sua vida!”. Se ela soubesse o tamanho do nojo que sinto por homens...
Eu me senti mesmo como se o mundo inteiro tivesse caído na minha cabeça. E alguém, não lembro quem, me disse para tentar conversar com ela. Você sabe que eu não sei conversar. Fico enrolando, enrolando, e nunca digo nada. Mas eu consegui!
Ela disse que havia terminado o namoro porque moramos longe uma da outra e a distância a incomodava. Então, eu disse que nós não moramos tão longe assim e que ela estava trocando as poucas vezes em que nos encontramos por vez nenhuma, disse que vê-la me deixa feliz, mesmo que por poucas vezes, e que saber que essa felicidade não aconteceria nunca mais me fazia mal. Perguntei o que ela achava e...
Ah, Ana! Ela é minha outra vez! Minha!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

3-1-12

Rosângela foi embora hoje, Ana. Passou a virada do ano aqui comigo. Acho que não dei muita atenção a ela. A presença dela me faz tão feliz que perco a noção das coisas, entro em pânico. Não estou acostumada a me sentir feliz.
Parece que todas as outras desapareceram. Nenhuma daquelas garotas significa nada para mim agora. As palavras horrendas que me disseram não significam nada. Nada que aconteceu antes de eu conhecê-la significa qualquer coisa. Eu não estava viva antes de conhecê-la. Estou viva agora. É esse o problema. É isso o que me apavora. Eu estou viva. E quem vive, morre.
Eu sei, Ana, que não vai durar. Cacete, eu sei que não vai durar. Ela não vai suportar estar comigo por muito tempo. Tenho medo de me apegar, de querê-la por perto o tempo inteiro, porque eu sei que vai acabar num piscar de olhos.
Pensei nisso enquanto a via indo embora. Vai acabar. É verdade que o que eu sinto por ela é maior do que qualquer coisa que eu tenha sentido até hoje, mas Rosângela é apenas uma pessoa. Nenhuma pessoa aguenta. Eu sou insuportável. Tenho lapsos de memória, insônia, alucinações, surtos suicidas constantes e violentos, quando explodo de raiva sou capaz de matar alguém (de fato, por pouco não o fiz em 2007, quando empurrei Rodrigo da escadaria do colégio). Sou possessiva, ciumenta e excessivamente carente de atenção e cuidado. Não sei falar, mas escrevo o tempo inteiro. Sou agressiva com quem chega perto de mim e gentil com quem me interessa. Sou um misto tão bizarro de tanta coisa que, quando ela perceber isso, vai desistir. Não quero que ela perceba. Preciso esconder. Pelo menos um pouco.
Não quero perdê-la.