Esse som de piano fica ecoando na minha cabeça. Às vezes parece um coro de anjos e me leva para um lugar de nostalgia e dor no peito. Tenho vergonha desse sentimento. Tenho vergonha desse pensamento insistente. Mesmo assim, elas continuam cantando. “Eien no sakura no ki ni narou”. E lá vêm as lágrimas.
Vou mudar do piano para o violão.
Voltei a pensar no mar. Por algum motivo, a imagem do mar me esmaga. É quase como se eu estivesse afundando. Que ninguém jamais saiba que eu choro pensando no mar. É primavera e eu gasto meu tempo pensando nisso. Que idiota.
Por que será que não consigo sorrir nessas horas?
Mesmo que eu descubra e acredite no significado da vida, não vai me servir de nada. Mesmo que eu aprenda as palavras certas para rezar e acredite na força delas, eu sinto que palavra alguma vai tirar isso de mim. Esse medo desgraçado, esses sonhos em que eu apenas assisto as pessoas carregarem o caixão de madeira; o meu eu que decide esperar pacientemente pelo retorno de quem esqueceu o caminho de volta vai continuar aqui.
Vai estar aqui enquanto ele não estiver.
Alguns versos estão vindo.
“Nós estamos pagando pelos pecados que jamais cometemos”
“Estou esperando o dia em que a loucura florescerá nesse rosto”
“Não conto mais as horas nem os dias, eu simplesmente esqueço”
“A água me cega e eu vejo apenas o som da chuva”
“Por que esse sorriso machuca? Porque é falso”
“As palavras que eu não ouvi são azuis como o mar sem estrelas”
“A lua é você que flutua e sorri na imensidão de veludo azul”
Na verdade, eu mudaria uma palavra no último dos sete versos, mas pouco importa agora. Escrevi como pensei. Talvez jamais os use de fato. Não gosto deles. São feios e tortos. Mas continuam vindo.
“Desenhar seus olhos na areia e pensar que você me vê”
“Chamar sem nome sem prestar atenção em mais nada”
“Eu estou ouvindo de novo o seu adeus silencioso na noite agitada”
“O mundo desaparecia e eu só queria que você voltasse atrás”
“Então eu não significava mais nada”
“Foi quando as flores secaram na grama verde”
Não quero dormir. Cansei de voltar àquele tempo enquanto durmo. É cruel. É cruel me obrigar a ver o que eu não fiz. Não quero dormir, mesmo que eu não agüente sequer levantar o braço. Vou ignorar o cansaço.
Quantas vezes consigo me furar antes do sol nascer? Acho que a seringa está no armário. Mas o armário está longe. Preciso lembrar de ter essas coisas perto da cama.
Será que eu disfarço bem a vontade de chorar? Será que as pessoas acreditam quando eu rio?
Algo me diz que as alucinações virão mais cedo esta noite. E eu ainda quero chorar. Mesmo.
Às vezes me pergunto se o fim está perto. Quase drama, mas penso. Se eu soubesse quando vou morrer, eu viveria como? Começaria a me arriscar de verdade? Pediria desculpas a quem machuquei? Talvez que simplesmente afundasse como ele.
Vontade repentina de dançar valsa. Poético. Poético demais. Faz anos que não danço valsa. Talvez nem lembre de como fazer isso. Será que Rosângela dança valsa?
“Em algum lugar, a última estrela queimou e morreu”
“Restou apenas o desagradável cheiro de rosas e mar”
“Um mar infinito que leva o ar de quem fica e de quem vai”
“E é por isso que as estações não mudam mais”
“Nem as noites mudam, está chovendo outra vez”
Ei, por que nunca vi uma estrela cadente? Que miserável! Sério.
“Essas lágrimas também são azuis”
“Já é o bastante, está tarde, eu desisto”
“O pássaro quer dormir agora”
Até quando... assim...?
Agora estou com raiva. Raiva de mim. Preciso de uma música nova. Certo, fiz uma ontem e fiquei feliz com o resultado, mas agora acho medíocre. Um dos meus grandes defeitos. Nunca fico satisfeita por mais de 24 horas. Dessa vez, não passaram nem seis. Quanto amor.
Meus braços doem.
Vou ter um colapso nervoso.
Preciso parar de complicar minhas músicas. Acaba se tornando um estorvo escrever as partituras. Se bem que eu sou a única retardada que faz isso a essa hora da madrugada. Obviamente é cansativo.
A guitarra está... pesada...
Ana...!