quarta-feira, 1 de agosto de 2012

1-8-12

Ana,
Parece que finalmente descobri por que gosto tanto de O Fantasma da Ópera em todas as suas infinitas versões (aliás, hoje eu estava relendo o livro e novamente assistindo o musical com a Yoka). Finalmente entendi.
Por debaixo das minhas roupas de Christine, há um coração de Erik: vivendo na obscuridade, preso às lembranças, sedento de amor, louco mas excessivamente são. Disfarço o desespero com o colorido das roupas.
Tu tens razão, afinal. Sou tão grande, grande demais para caber em uma. Não consigo nem posso ser apenas uma. Preciso dividir a dor para suportar.
Vai ver é por isso que não posso ter aquela garota. Talvez por ser Christine e Erik ao mesmo tempo, eu já seja meu próprio par até o fim da vida. A esta altura, Ana, eu já percebi que não a terei jamais. Por mais que eu a ame tanto que sinta doer os órgãos. Por mais que eu a ame e queira e bem ou mal espere, vou morrer sem tê-la. Rosângela é, de fato, o “grande amor” da minha vida. Sei disso tão bem quanto sempre soube que eu jamais seria normal. Sinto meus músculos se contraírem todos e pararem minha respiração quando penso que a perdi. Não digo a ninguém além de ti e da própria Rosângela, porque qualquer pessoa além das duas me chamará de adolescente confusa. Não sei se ela compreende, mas espero que sim. E tu... tu és a que sempre entende minhas dores.
Acredite, Ana, que estou com lágrimas nos olhos agora. Não paro de pensar nela, na voz, no rosto, nos braços, no cabelo cacheado... Como pode? Em sete de setembro completará um ano desde que a conheci. Foi tão rápido, Ana, tão rápido que eu a deixei ir sem lutar por ela. Tens ideia do quanto odeio a mim mesma por isso?
Ninguém neste mundo além dela há de tocar em mim. Ninguém. Que ela não seja nem queira ser minha eu compreendo e não a culpo. A coitada pensou que também me amava, mas não me conhecia de fato. Não a culpo. Foi por isso que percebi a semelhança com o Fantasma: quando Christine implora a Erik que acredite em seu amor e mostre seu rosto, ele, que a ama apesar e acima de tudo, tira a máscara. E então Christine foge. Talvez seja por isso que eu chore ao assistir musicais ou ler o livro. Choro mesmo. Tanto que quase seco.
 
 
Escute, Ana, eu não estou bem. Admito pela primeira vez de fato, com todas as letras: eu não estou bem, e não estou há algum tempo. O que aconteceu com Rosângela piorou tudo. Eu não a culpo porque a culpa é minha. Dói tanto, tão profunda e imensamente, que eu não sei quanto tempo mais posso aguentar. Eu a quero, mas não luto, não brigo por ela, justamente porque a amo e coloco suas vontades acima das minhas em toda e qualquer situação. Não sei o que é mais terrível: se é quando eu vagava moribunda por aí levando socos da vida e dos vivos sem saber que havia algo maior e melhor do que aquilo, ou se é agora que sei exatamente o que me faria inteiramente feliz e não tenho forças para segurar.
 
Mudando de assunto para evitar o suicídio (ao menos por enquanto), escrevi uma mensagem para Mana-sama. No sábado. Escrevi algo como “Não vou ao show, mas quero agradecer pela vinda ao Brasil e dizer que meu coração estará com você em São Paulo”. Achas que fui muito tola? Nem sequer planejei escrever; foi mais um dos meus detestáveis atos impulsivos.
Quero escrever à Yoka. Sim, eu consegui o endereço naquela época, mais ou menos dez meses atrás, mas falta coragem. Para mim, ela é muito... Erik. Não sei, acho que na minha mente eu a vejo como Erik. Foi o personagem mais marcante para mim, especialmente por ser um Erik absolutamente frágil e gentil diante de Christine, apesar de ser terrível com quem invada seu espaço (reconhece essa descrição?). Vejo-me inteira na interpretação de Yoka. Talvez eu soe convencida, mas juro que é verdade. Os sorrisos diante de Christine são cheiro de amor, mas doídos, porque ele teme que ela fuja ao ver seu rosto, seu verdadeiro eu. O sorriso de Yoka como Erik lembra a inocência e a fragilidade de uma criança, mas também lembra a dor do luto e o desespero que causa a rejeição. Eu sei como é – e tu também sabes, mesmo que não em todos os sentidos, tenho certeza – ter esse sorriso no rosto e ninguém entender de verdade.
Eu sei que Erik foi um personagem entre os tantos que Yoka encarnou. Posso citar vários outros, como Lady Chacha e Drácula, e ela é uma atriz magnífica, mas não sei se desassociei o personagem da atriz. Na verdade (que isso fique entre nós duas, por favor!), acho que de certo modo eu devo ter me apaixonado por ela em algum momento, no começo, logo que vi seu Erik pela primeira vez, mas como se estivesse me apaixonando por mim mesma, pela minha realidade. Não tenho certeza se me apaixonei de fato, porque o que senti foi uma profunda vontade de beijar aquele rosto deformado e vê-la (vê-lo) sorrir, mas penso que senti isso porque eu queria que alguém beijasse a minha alma deformada. Entende?
Minha mente é sempre tão confusa em relação a Yoka. Quando penso nela, imediatamente associo o nome e o rosto a Erik, e ouço sua voz cantando “Boku no sakebi o kiite kure...”, e penso na dor, na agonia de ser deixado para trás, ser renegado pela pessoa que tu amas verdadeiramente mais que tudo, e então penso em Rosângela, e minha cabeça salta de uma para a outra, e eu sinto tonteiras.
Tenho medo de escrever à Yoka, receber uma resposta e confundir as coisas ainda mais. Mas quero tanto escrever! Talvez eu queria confundir as coisas. Para aliviar, não sei. Penso que, na minha cabeça, Yoka Wao seria aquela pessoa a me compreender e aceitar por inteiro, com todos os erros e defeitos. Mas isso é porque lembro de Erik e penso que ele compreenderia alguém como ele mesmo – mas ele não é ela!
Tenho alucinado e tido pesadelos. Demoro muito para conseguir dormir e acordo várias e várias vezes, mas sempre tenho pesadelos. Erik tira a máscara, Christine grita e foge e Erik é esquecido sozinho, agonizando, desesperado por ser “feio” demais para ser amado.
Lembra-te que meu maior medo é que riam ou fujam de mim ao verem quem eu sou de fato? Aconteceu tantas vezes desde a infância, Ana... mas nunca doeu tanto como dói ter perdido Rosângela.
Quando Yoka – Erik – canta, eu não consigo não chorar. “Doushite kono you ni umarete kita no darou?”. Repito a pergunta eu mesma: por que nasci assim? O que fiz para merecer? Nem ao menos tive tempo de fazer algo para merecer. Está tudo errado desde o princípio!
Cansei.
 
Cansei da vida, Ana.
Quero morrer.
Não quero mais colecionar lembranças do que poderia ter sido bom se eu não fosse errada.
Kurayami kara sukutte hoshii”, diz Yoka. Quero ser resgatada da escuridão, eu repito.

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