sexta-feira, 3 de agosto de 2012

3-8-12

Ana,
Desculpe pela folha de caderno. Estou escrevendo por impulso, depois de quase uma hora e meia de muda reflexão dentro do armário (sim, eu estava sentada dentro do armário). A situação, como talvez tenhas percebido, não é das melhores e, se quiseres saber o que penso, acredito que de agora para depois, será pior e pior, cada vez mais. Não vou deixar que percebam, naturalmente, ao menos enquanto puder controlar, mas estou completamente sem forças. A cada vez que consigo uma lasquinha de esperança, caio mais fundo.
Perdi Rosângela. Até hoje, era mera suposição. Eu pensava sobre o comportamento recente dela, e também o meu, e supunha que o fim era eminente. Hoje tive a confirmação. Perdi-a. Ou melhor, deixei que fosse. Ao menos foi sincera. É raro eu encontrar quem me diga a verdade. Ela disse não achar certo estar comigo se apenas “gosta” de mim, e não “ama”. Eu disse “Tudo bem”. Então, ela perguntou o que eu queria, e eu disse que não quero nada se ela não quiser. Assim. Assim. Assim.
Essa sou eu, Ana – alguém suficientemente imbecil para abrir mão de quem ama sem sequer argumentar. Por que eu faço essas coisas? Por que deixo todo mundo ir? Não consigo segurar ninguém. E, na verdade, não me importo. Os que foram antes não me importam. Mas Rosângela... eu não sei, só sinto que desisti do maior sentimento da minha vida. Ou melhor: o sentimento continua em mim, certamente; o que eu não tenho mais é a razão da existência dele.
Odeio minha própria mente. Odeio-me inteira por ser incapaz de... Gosto tanto dela que não consigo cogitar pedir a ela que fique comigo se ela não quer. Por quê? Nos filmes, as pessoas se ajoelham, e choram, e gritam, imploram. E eu, mesmo querendo fazer tudo isso, apenas aceito.
Patético.
Então, o meu pai gritando comigo. Ele não disse nada que eu não soubesse. Tenho consciência do peso que minha vida e minha insanidade têm para os outros. Sei que causo problemas e insegurança e que nunca serei coisa melhor que um verme parasita. Sei de tudo isso. Aprendi cedo, felizmente. Mas ouvir isso do meu pai doeu mais do que doeram meus quase dezoito anos. Era a última pessoa de quem eu esperaria ouvir tais coisas.
Não sou boa com coisa alguma, não concluo coisa alguma. E agora, não quero coisa alguma. Horváth se diverte às minhas custas, suponho, como, aliás, todo mundo sempre fez.
O que vou fazer, Ana? Eu te juro que hoje sou Ayase, como se criá-lo, anos atrás, naquela história que ninguém leu, tivesse sido como um prenúncio do que seria a minha vida. Se antes eu era Yukio, agora sou Ayase, mas ainda não encontrei meu próprio bastão de ferro para transpassar meu estômago e acabar com isso de uma vez.
Tu, Ana, és a única pessoa humana no mundo inteiro que ainda não me deixou. Sinto muito por não ser boa para ti como tu és para mim. Eu a amo. Juro que amo.
Obrigada por parecer mais com um gato do que com gente.

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