terça-feira, 9 de outubro de 2012

9-10-12

Ana,
Hoje foi dia de dar aula. Acordei bem cedo, porque estava ansiosa. Como não consegui dormir direito, fiquei com muito sono. A ansiedade era tanta que eu estava pronta para sair uma hora antes do necessário. Fiquei andando de um lado para o outro, falando sozinha para passar o tempo.
Eu estava muito nervosa. Não foi minha primeira vez, mas eu estava mesmo muito nervosa. Estava com uma coisa na cabeça que não me deixava pensar. Evitei olhar para os alunos na maior parte do tempo. Eu tremia tanto que era difícil me concentrar.
Os alunos são bons. Agitados, mas bons. Eu realmente gosto dessa classe das terças-feiras. A menina Luiza não estava lá hoje. Luiza é filha de uma japonesa e um americano. É muitíssimo graciosa e aplicada, quase não fala. Presto muita atenção nela e no rapaz David, que se senta perto da porta. Mas a questão tem a ver com Luiza.

Na semana passada, eu comentei com Sabrina, minha “mentora”, que achei Luiza bastante agradável, digamos, esteticamente. Comentei sem pensar, com naturalidade; eu sou artista, afinal, mesmo que em total decadência, e coisas belas chamam a minha atenção tão facilmente que nem percebo mais, mas de repente me ocorreu uma coisa...
Sabrina fala com seus alunos sobre o namoro com Thiago, coloca fotos com ele na Internet sem problema algum. Aliás, Thiago é aluno dela. Já eu, nunca vou poder fazer algo assim. Certamente que não estou em relacionamento algum e pretendo continuar assim, porque há no mundo apenas uma única pessoa que me interessa (ela está sempre presente, perceba, em todos os meus pensamentos), mas nunca vou poder falar da minha vida.
 
A média de idade dos alunos dessa classe é de 13 anos. Não são tão novos (quando eu tinha treze anos, minha professora espalhou pelo colégio a história de que eu era prostituta, satânica e suicida). Mas eu ainda sou uma má – péssima – influência. Imagine se algum pai ou alguma mãe nessa cidade aceitaria que os filhos tenham uma professora lésbica. E seria ainda pior se descobrissem que namorei uma garota de quatorze anos (mas eu tinha dezessete!). Não posso ter meus alunos em redes sociais e não posso responder perguntas pessoais, e eles me enchem de perguntas pessoais porque, oras, acabamos de nos encontrar! Convivo com eles, mas não os conheço e eles não me conhecem. Não posso perguntar sobre eles, porque também perguntarão sobre mim.

As secretárias sabem. Não aprovam minha vida “desencaminhada”, mas não têm problemas em lidar comigo. Às vezes surgem brincadeiras entre nós, aquelas horas em que uma diz “Cuidado, ela está de olho em você” e eu digo algo como “Ah, não, você é loira, não gosto”. Conversas completamente naturais para nós, mas que agora, por eu ser professora, podem causar problemas.
Hoje Sabrina disse que “a garota que eu amo” havia faltado. Bem, Luiza me interessa apenas por ser uma aluna inteligente e uma menina bonita, mas tem, não sei, 12 ou 13 anos. Eu jamais me atreveria a pensar qualquer coisa dela. Sabrina sabe disso. E as meninas da secretaria também. Não sou idiota nem criminosa e tenho horror a pedófilos. Mas é assim que brincamos, como se eu fosse me interessar por toda garota bonita que apareça na minha frente, especialmente se tiver traços orientais. São brincadeiras sem propósito que nos rendem boas risadas. Mas hoje eu disse a ela que é melhor pararmos. Pode causar problemas se algum pai ficar sabendo da minha... coisa.

Só que se eu ficar escondendo, sinto como se estivesse traindo minhas memórias, a época em que fui agredida e humilhada por me recusar a concordar com a ideia de que sou “doente”. Passei por tudo aquilo para me esconder agora?

Estou tão confusa e irritada com isso. É ridículo, suponho, mas corro o risco de perder o emprego e, mais, levar um processo de alguém souber da brincadeira sobre Luiza. Eu queria desenhá-la (ela é mesmo muito bonita), mas não posso. Não posso nada.
E então?

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